domingo, 20 de setembro de 2015

DEIXE-ME BUZINAR E CHUPAR LARANJA

Como muitos amigos meus sabem, antes de decidir estudar Letras e ser etimólogo, eu queria ser entomólogo. Minha paixão pelos artrópodes era tal, que não via nada além deles na minha frente. Essa obsessão parece um pouco a história que Oliver Sacks conta sobre sua relação juvenil com a química em seu maravilhoso livro Uncle Tungsten. Pois bem, como toda paixão, ela passou da noite para o dia. A transição é meio complicada de explicar, mas já que comecei a falar disso, vamos lá.

No começo, eu tinha dó de matar os insetos, mas minha mãe, misteriosa como a mãe de Sacks e como todas as mães, autorizou-me a fazer isso, dizendo que não era pecado. Com a aprovação de Deus, desde então, lá no início da década de 80, passei a coletar insetos. Os moleques da vizinhança achavam aquilo tão diferente, que me presenteavam com bichos mortos encontrados em suas casas. Somente insetos, aracnídeos e crustáceos participavam das minhas caças solitárias ou em bandos de moleques, entre os quais estavam primos e vizinhos em Botucatu. Íamos para uma região conhecida como Morro do Peru e Bocaina. Não saíamos dos terrenos baldios e das matas. O resultado disso foram milhares de insetinhos mortos: besouros, borboletas, gafanhotos, libélulas e muitos outros. Havia tantos na natureza que jamais pensei que um dia sumiriam, mas sumiram, sobretudo os que eu mais amava, os quais se encontravam com facilidade sob os troncos podres, tijolos e pedras: opiliões, colêmbolos e outros estranhos seres. Aliás, lembro-me que, um dia, revirando pedras, encontrei um zoráptero. Só a história dele daria um blog.


Olhava os pequeninos por um microscópio presenteado pela minha mãe. Não me interessava pela histologia ou pelo interior deles. Amava suas armaduras, seus espinhos e quelíceras, suas maravilhas feitas de queratina, seus olhos e ocelos, suas pernas articuladas. Aos poucos, passei a venerar a nomenclatura zoológica. As leis do ICZN pareciam-me tão lógicas, tão perfeitas, que ainda hoje me fazem pensar que a nomenclatura zoológica foi o feito humano mais próximo da racionalidade. Encantava-me o fato de insetos tão pequenos terem nomes tão complexos. Um primo, que havia cursado seminário, deu-me seus livros de latim e grego e eu comecei a entender o que significavam.

O prof. Benedito Soares, que trabalhava na UNESP de Botucatu e que me tratava como o filho que nunca teve, convenceu-me também a estudar alemão. E como não saía de quatro bibliotecas da minha cidade (a Biblioteca Municipal, a do Centro Cultural, a da UNESP e a do EECA, onde estudava), travei contato com outras línguas: espanhol, italiano, russo, esperanto, bororo. Nesse momento, veio a súbita metamorfose. Resolvi, do dia para a noite, fazer Letras, apaixonado pelos livros de Sapir e Câmara Jr que encontrei. Mudar de paixão foi fácil. O difícil, pensava, seria contar ao prof. Benedito que havia virado casaca. Ensaiei muitas vezes como lhe diria, mas não foi necessário porque ele faleceu quando estava no terceiro ano do Colegial.

Nessa época, mas sobretudo depois dos dezessete anos, resolvi que não mataria mais insetos. Ainda hoje salvo as baratas que entram em minha casa. Uma vez fiz isso com as mãos, mas não recomendo, porque fiquei com uma diarreia horrível, provavelmente psicológica. Sou fiel a esse princípio, tanto quanto um jainista digambara, mas obviamente não pelos mesmos motivos. Não adianta convencer-me que insetos não sentem dor, por exemplo. Todos os insetos espetados que tenho em casa são da década de 80 e os que aparecem datados depois disso foram achados mortos. Essa mudança de atitude, na verdade, resultam de questionamentos elaborados, longe de casa, à lógica de minha mãe. Contudo, penso que, dentro de mim, já tinha a vontade de não matar mais os insetos, afinal, nunca gostei dos estilingues dos moleques. Pela mesma razão, escondia a espingarda de meu pai quando meu primo ia em casa, ávido de matar os pobres anus que se dependuravam no taquaral.


Mas, naquela época, a natureza era tão abundante, que me dava a certeza de que tudo ficaria intocado para sempre. Um dia, pensava, poderia apresentar, vivos, a meus filhos, um a um, os insetos que coletei. Ainda tinha essa sensação quando finalmente busquei minha coleção em Botucatu, a qual se deteriorou por falta de cuidado e manutenção, nos longos anos em que não tinha moradia fixa. Ao ver meu megalóptero irrecuperável pela destruição dos corrodêncios, todas minhas coloridas libélulas coletadas na Bocaina destruídas, o meu enorme belostomatídeo transformado em poeira, ainda me consolava a ideia de que eles estavam por aí, para sempre, e que não fazia mal jogá-los fora, afinal, um dia, quem sabe, encontraria outro espécime morto, que substituiria o estragado da minha coleção. Vão engano.

Ninguém fala disso, mas a extinção dos insetos é real. Nos últimos tempos tem havido uma redução tão absurda na quantidade de espécies, que não saberíamos nem ao menos avaliar qual é a porcentagem atual dos ainda existentes. Borboletas comuníssimas, como a monarca, desapareceram. Que houve na sua longa e milenar rota do hemisfério norte para o hemisfério sul, com pausa para namoro e congelamento no México?  Aliás, para onde foram todas as borboletas? Hoje, no interior de São Paulo, vejo somente alguns pierídeos, um ou outro papilionídeo, mas sumiu a maioria dos licenídeos, inúmeros heliconídeos e centenas de outras espécies comuníssimas. Imaginem as que já eram raras! Faltam olhos treinados como os meus para perceber isso? Certo dia, indo a Maringá, vi várias espécies que cria extintas. A fauna entomológica paulista está indo cada vez mais para o Sul? Por quê?

Na capital, por exemplo, na USP e no Parque Trianon, vejo diversos insetos que não encontro há anos no interior de São Paulo. Um pouco de mata intocada faz esse milagre. Aliás, por incrível que pareça, entre os paredões de concreto da capital, ainda vejo animais que há décadas não se encontram no interior, cheio de canaviais e seus pesticidas. Não são só vaga-lumes, mas todo tipo de inseto. No cemitério da Consolação, por exemplo, há uma linda espécie de borboleta alaranjada que nunca havia visto antes, com as asas posteriores com uma espécie de cauda, semelhante à dos papilionídeos, embora não seja um. A primeira vez que a vi estava perdida dentro da padaria. Há mais de uma década vejo-a zanzando pelas árvores do cemitério e do atual corredor de ônibus. Na Cidade Universitária, perto do estacionamento, flagro periodicamente uma vespa Pepsis, que, por gerações, leva suas aranhas para uma mesma toca, num ritual que eu percebo há mais de vinte anos.



Mas cadê os elaterídeos tão divertidos, com seus pulos imensos, que eu gostaria de mostrar para meus filhos? Sumiram. Crisomelídeos, melonídeos, escarabeídeos e outros insetos tão comuns estão cada vez mais raros.

Entre os desaparecidos está o cerambicídeo Compsocerus violaceus, besouro vermelho com élitros metálicos, azuis ou verdes, com intrigantes pompons na antenas. Uma obra-prima da evolução. Há décadas procuro um em vão. Lembro que, para mostrá-lo para alguma visita em casa, quando criança, bastava ir ao quintal de meu avô, vizinho ao meu, e lá eu achava alguns exemplares em poucos minutos.

E assim andava eu solitário, nos últimos anos, sem meus amigos de infância e, sentado na sala dos professores, eis que vejo na soleira o meu saudoso cerambicídeo. Morto! Alguém, entrando na sala (espero não ter sido eu mesmo), pisou-o de maneira certeira. Estava lá esmagadinho. Coletei-o e já está espetado na minha coleção, todo torto e explodido com o pisão. O anterior, que datava de 1981 estava com a cor apagada e era de uma feiúra que doía. 

Mas fiquei imaginando se não era o último da espécie. Cada inseto que revejo depois de décadas me dá essa sensação. Sei que são danados, que se escondem. Milhões de anos de infortúnios lhes garantiram uma capacidade de adaptação muito maior do que a de nossa frágil e pretensiosa espécie, mas, mesmo assim, o pensamento de que será a última vez na vida que os verei é inevitável. Espero, porém, que não seja a última vez na vida de um ser humano que se importe com eles, pois o espetáculo da existência desses bichos é indubitavelmente algo muito mais admirável que a contemplação de qualquer pintura renascentista. Mas ninguém se importa com os insetos.

Segundo exegetas respeitadíssimos, entre eles, com certeza, o douto Athanasius Kircher diria que, antes do dilúvio, Noé não precisou recolher um casal de cada espécie de inseto em sua famosa arca, pois, afinal de contas, como todos sabiam - pelo menos até chatos como Francesco Redi, Lazzaro Spalanzani e Louis Pasteur provarem o contrário - os insetos empesteariam o mundo de novo, assim que as águas do dilúvio baixassem, brotando espontaneamente da lama. Pena que a abiogênese não seja verdade (ou que tenha sido verdade apenas uma única vez há 4,4 bilhões de anos): os insetos somem sim da face da Terra por muitos fatores (o homem é um deles), mesmo depois de milhões de anos de existência bem-sucedida. Como não têm alma, não posso consolar-me em revê-los nem mesmo no post mortem.


Voltando a casa, fui à internet e eis que tenho uma surpresa. Lendo este site: http://www.revistas.ufg.br/index.php/pat/article/view/2675 descobri que o citado besourinho de pompom nas antenas é uma praga de frutas cítricas em alguns Estados brasileiros. Os agrônomos são muito criativos: chamam-no de besouro-viola. Fiquei muito feliz com a capacidade de adaptação de meu amigo danadinho. Não havia frutas cítricas no Brasil, na época do descobrimento. Os europeus eram incapazes de entender que gabiroba, uvaia ou umbu são frutas também e tiveram de trazer maçãs, laranjas e uvas. Como as frutas nativas eram consideradas mato, privaram de comida milhares de espécies de insetos, que acabaram ou morrendo (quando eram seletivos demais) ou se adaptando, comendo essa comida importada das lavouras humanas. Nosso amigo resolveu atacar os laranjais. Ótimo.

Mas convenhamos: ele, tão simpático e bonitinho, não tem cara de praga.

Decerto, se é bonito, tem alma boa e não teve escolha, diria Rousseau, defendendo nosso bom selvagem. Assim é a vida: adaptou-se e, por isso, vai levar veneno na cabeça, com certeza. Aí, o homem chupa feliz sua laranja com veneno, mas livra-se do inconveniente besourinho de pompom.

Isso me fez lembrar uma reportagem atual (http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cienciasaude/198960-a-invasao-das-pererecas.shtml), sobre a invasão da perereca antilhana Eleutherodactylus johnstonei em um bairro de São Paulo. Racional, um biólogo explicou a um jornal da TV que o anfíbio é prejudicial para as espécies nativas (pergunto-me quais são as outras espécies da ampla fauna de anfíbios do Brooklin...).

Ora, uma praga por definição é uma espécie bem-sucedida num ambiente diferente daquele de origem ou uma espécie autóctone que se adaptou e passou a se alimentar das plantas úteis ou belas, do ponto de vista humano. Os lindos aguapés brasileiros viraram praga em alguns lugares da África. Algumas pragas são maléficas, trazem doenças, mas o pobre anfíbio apenas quer cantar, atrair umas pererequinhas para namorar (sim, só os machos coaxam) e como são milhões, não deixam ninguém dormir à noite.

O anunciado holocausto batráquio justifica-se pelo fato de que são incômodas, pois os assobios, medidos em altíssimos decibéis, atravessam até mesmo as vidraças anti-ruído e, portanto, chateiam a espécie mais importante do Brooklin, um primata chamado Homo sapiens. 

Gás tóxico resolverá tudo, pois acabará com a invasora caribenha, mas, raciocinando com o biológo da entrevista, também matará as supostas espécies nativas que deveriam ser protegidas de sua invasão (para não falarmos dos insetos que servem de alimento para aranhas e passarinhos igualmente nativos ou não).

Daqui a pouco choramingaremos porque vivemos num deserto. Quem mandou as pererecas não serem como os pardais, invasores igualmente alienígenas mas quietinhos?

Ninguém quer ser incomodado, sobretudo por pererecas estrangeiras barulhentas, que não têm juízes para defender seus direitos coaxatórios. Nesses casos, face à indiferença e à falta de empatia, a pena de morte parece a única solução. E como são pequeninas, inofensivas e não sabem falar para se defender, quem é que vai ligar quando, após sumirem todas, juntamente com seu incômodo chiado intermitente parecido com o som de engrenagem, a paz se reestabelecer, para que possamos ouvir tranquilos as buzinas dos automóveis que passam pelas avenidas, cantando os pneus, com música de baixo nível em alto volume?

Detalhe sórdido: os anfíbios são a única classe de vertebrados em risco de extinção. Isso já é anunciado há anos. Talvez o Equador tenha ainda uma grande fauna, mas os sapos e rãs do Brasil estão com os dias contados. Com a seca dos últimos tempos, a situação piorou. Vi três sapos atropelados, fugindo de uma lagoa recém-seca na USP, sem ter para onde ir. Nesse sentido, matando as pererecas estrangeiras, só estaremos contribuindo para que os anfíbios sumam mais rápido de nosso planeta, para ficarmos sozinhos nele, comendo nosso hambúrguer e contemplando o pôr-do-sol diante do nosso lindo litoral poluído.  Na certa, mesmo com esse cenário, alguém jobinianamente dirá: como a natureza do Brasil é linda!

A espécie de perereca caribenha achou um jeito de sobreviver, não nas Antilhas, mas aqui no nosso proverbialmente acolhedor país, que a receberá, ao que tudo indica, com um banho de ácido. Assim tratamos as espécies que nos chateiam e abundam demais.

Mas calma, alertam os sapientíssimos repórteres de nossa imprensa: tudo será feito com cuidado, para não afetar a flora e a fauna nativas, igualzinho quando criamos uma hidrelétrica. Garantem-nos os jornais que especialistas, tal como Noé, coletarão exemplares de todos os animais da área a ser inundada, inclusive minhocas, proturos e dipluros que vivem sob as pedras ou nas profundezas do solo. Serão salvas, prometem os jornais, todas as plantas, inclusive o mais reles vegetal indeterminado e inútil à indústria farmacêutica. Anotarão certinho, sem a menor necessidade de voltarmos ao original, todas as inscrições rupestres e gravuras pré-históricas das imediações, mesmo as de cavernas subterrâneas desconhecidas. Todos os fósseis serão coletados, não se preocupe. Toda a vida será recriada num outro solo, com outro pH, num Ararate maravilhoso, com outro subclima. Lá os indivíduos se adaptarão felizes, num hábitat completamente diferente, sem estranhar nadinha. Isso é certíssimo. Como dizia Henfil: deu no New York Times!


Mas e se, céticos dessa competência maravilhosa, em vez disso, deixássemos as pererecas invadir toda a cidade? Teríamos apenas de conviver harmoniosamente com elas e com seu ruidoso rangido. Elas fariam parte do cenário, como a poluição, os carros e a violência, não menos incômodos. Talvez nossos ouvidos evoluíssem para adaptar-se ao barulho enlouquecedor, após longo período de adaptação, no qual teríamos de dormir de dia e trabalhar de noite. Humanos, pensem na sua própria evolução, let them be!
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O BOM-SENSO DE CADA DIA DAI-NOS HOJE

É uma maravilha. Até o mais insano concordará comigo. Não há quem acredite não ter bom senso. O que ajuda e o que empurra, o que salva e o que mata, o que grita e o que ouve, o que julga e o que é julgado. O bom-senso é a menor unidade das relações interpessoais, tanto quanto o átomo é a menor unidade da matéria ou o DNA a menor unidade da vida. 

Se todo mundo está satisfeito com a sua quantidade de bom-senso, ninguém saberá defini-lo sem usar uma palavra chave, a saber, a palavra "eu". Rousseau achava razoabilíssimo que as pessoas abdicassem de suas mesquinharias em prol de um bem comum. O duro é saber quem terá bom-senso para fazer a partilha desses bens abdicados. Mas se todos apontassem, na época, para o próprio Rousseau, ele decerto teria aceito de bom grado, pois não tinha dúvida que deveria ter na sua coroa o título de homem mais sensato da Humanidade. Mas ninguém foi doido para tal, obviamente, o que não impediu a humanidade de ir atrás de líderes que prometiam o imprometível.



O curioso é que, mesmo que todo mundo levasse consigo seu quinhão de bom-senso, não há acordos entre as pessoas. Recentemente vi o estupendo filme Relatos salvajes, de Damián Szifron. Acho que essa película resume tudo o que já disse sobre a natureza demasiadamente animal do rei da evolução. Sim, rei por meio de golpe, não por causa do mérito. 

Pense no homem recém-formado, com seu cérebro gigante, inteligentíssimo como provou sê-lo, pelo menos até a invenção das armas. Sem elas, não teria domado bicho nenhum, pois os búfalos não são sensíveis à retórica. Sem as armas, seria eterna vítima dos lobos e outros carnívoros. Teria de correr diariamente atrás do pão nosso de cada dia e teria de saber poupá-lo. Mas a evolução do cérebro do homem parou, milênios atrás, quando inventou a primeira arma. Sim, a evolução do cérebro era apenas uma reação e necessitava da energia vinda de outras partes do corpos.  Com isso, tornou-se um bicho frágil, tão desprovido de força e de agilidade, que poderia causar dó. Com a primeira arma, contudo, transformou-se em monstro, maior que os tigres dente-de-sabre que o perseguiam. Com ela nasceu também o desperdício: uma preguiça gigante era abatida e a carne apodrecia porque ninguém conseguia comer tudo. Não tinha problema, no dia seguinte, abatia-se outra. Até as preguiças gigantes virarem poesia.

E quando as armas deixaram de ser de pau ou de pedra, piorou. Bastou que se inventasse o bronze e surgiram os impérios. A crueldade dos assírios se tornou proverbial. Era mesmo necessário arrastar pessoas em correntes pelo deserto, com os olhos vazados? Não. Mas a crueldade criava o status necessário para o temor e para que o animal bruto novamente se impusesse. Para que cérebro se temos armas? E as armas se sofisticaram: projéteis que atingem distâncias inimagináveis para o antigo troglodita; gases tóxicos e corrosivos, que implodem nossos pulmões; bombas incendiárias ou desintegradoras, que penetram o âmago da estrutura da matéria.



Diz o etólogo Frans de Waal que a empatia é um dom genético que aparece também em outros animais. Assim sendo, a evolução nos deu a capacidade de olhar para um ser que não é alguém de nosso círculo familiar e sentirmo-nos momentamente no lugar dele ou como se fosse ele. Virou até filosofia, travestida de religião, quando se prega o amor ao próximo. Mas acreditar que todos um dia terão na teoria e prática esses valores ditos cristãos é pura utopia: não tenho a menor dúvida que a admirável capacidade de empatia é muito variada entre as pessoas. Algumas sofrem ao ver alguém sofrendo; outras, ao contrário, regozijam-se ao fazer alguém sofrer e nem se abalam. Portanto, se não é a inteligência nem a empatia que nos distingue dos demais animais, o que é?

Talvez a arrogância. Uma fera tem dentes e garras, ruge, ameaça, ataca, mata cruelmente, mas parece que, quando não faz isso para se alimentar ou por diversão, costuma fazê-lo para garantir a sua preponderância num determinado território. O homem instintivamente faz o mesmo e se sai muito bem com suas armas ou com seus bandos e como o território humano não tem limites, sente um regozijo quando escala a mais alta montanha do mundo, quando vence desertos e geleiras. Por outro lado, fica muito triste porque percebe que nunca sairá da via láctea, nem jamais poderá ir ao centro da Terra. As suas limitações o irritam e a religião ocidental sempre o lembrou dos seus limites, por exemplo, na imagem da presunçosa Torre de Babel ou nos outros desafios que fez à divindade, como o de Arachne. A modéstia, advinda tardiamente, por meio da consciência, parece bem humana, tanto quanto a arrogância.

Então vejamos bem: a inteligência parou de crescer porque temos armas, a empatia não é algo que valha a pena desenvolver na lógica do egoísmo evolutivo, a modéstia é válida somente depois que caímos e dura bem pouco. Fora isso,  nosso corpo é franzino e nossa mente é volátil. Burro, antipático e arrogante, eis a imagem especular do homem racional, altruísta e admirável. Não é sua sombra. Trata-se apenas do outro homem, tão verdadeiro quanto o pintado de dourado pelos antropólatras do Renascimento.

A racionalidade humana requer coerência, mas amamos a incoerência, porque sem ela seríamos desumanos, como alardearam e oficializaram os chamados "românticos" já no fim do século XVIII, reação imediata, preguiçosa e previsível às conclusões do século XVII, com seus formalismo rigoroso e com suas exigências quase irrealizáveis para um pobre símio recém-saído da savana. Ou seja, o que o romantismo pregou com o sucesso de uma revolução obviamente francesa é que não queremos ser autômatos, que queremos a imprevisibilidade e ela requer a falta de lógica. 

Pirar é legal, convenhamos. Pensando assim, logo partimos das premissas para a conclusão e da teoria à prática: joguemos a nossa garrafa de cerveja na calçada no nosso momento de descontração. Este é o raciocínio que presencio mais frequentemente, vendo a sujeira pós-final de semana: somos moderninhos, conscientes, muito engajados, mas há quem faça a faxina para nós. Digam-me: quem realmente consciente tem coragem de arremessar um pedaço de papel no chão? Mas o tempo dos papéis de bala já eram. Agora são garrafas, tampinhas, maços de cigarro, absorventes, preservativos, um lixo nojento que se encontra após as baladas dos bares da rua Augusta que inexistiam até a década de 90. 



O vizinho, que mantém seu quintal muito bem cuidado, joga um bilhete de Zona Azul no meu jardim, apesar de ter abundantes lixeiras na sua casa. Sequer pode mentir, dizendo que não foi ele: o número da placa está no bilhete amassado. Uma vez, Dercy Gonçalves disse numa entrevista que jamais jogava lixo na rua se alguém estivesse vendo, mas bastava que não houvesse testemunhas e faria isso com muito orgulho. Bons tempos os da hipocrisia de Dercy! Hoje liberou geral e quem joga lixo na rua tem até alguma razão política, ética e mais demonstrável que a fórmula da lua do conde de Pontécoulant. 

Perante esses grandiosos feitos da espécie humana, lembro-me da cena do filme Cronicamente inviável (2000) em que meninos urinam na soleira de uma casa. São ofendidos por pessoas que passam, mas para o espanto do espectador, entram em seguida na mesma casa urinada, pois era lá que eles moravam. O absurdo é exatamente este: quem mijaria na porta da própria casa? Mas só conseguimos indagar isso quando possuídos pelo frio demônio da racionalidade. Falta pouco para concluirmos, contudo, que uma ação como essa é coerente, dado o nosso comportamento cada vez mais voltado ao irracional e retórico. O mesmo homem que berra pelos seus direitos na fila do supermercado porque o que está diante dele demora e o faz perder preciosos minutos não se importará se tirar o tempo dos que estão depois de si, demorando ainda mais tempo. Afinal, é possível provar por meio da sua semilógica que as pessoas na fila que estão atrás dele não são ele próprio, centro incontestável da indignação, maior representante da racionalidade e da coerência humanas.


Não, não, não. O homem racional não existe. Mas atos racionais sim. O que está por trás de um monumento de racionalidade humana ou é o acaso ou, na melhor das hipóteses, algum exagero casual de coerência de raciocínio que somente alguns poucos tiveram. E quem o teve, teve-o raramente. Mesmo assim, só uma parcela da racionalidade é conhecida, pois raramente pode levar à criação de algo que seja do gosto do bem comum e que sirva para enaltecer a espécie. Portanto, não foram os chineses que inventaram a porcelana: foi um único sujeito que vivia no território chinês, imitado por outros depois do seu heureka, por acaso, chineses. Se não tivesse havido um Faraday, um Maxwell, um Heimholtz, um Marconi, um Edison e tantos outros esquisitões não haveria nada daquilo de que o mundo moderno se orgulha hoje. Sem eletricidade não haveria Facebook. Estaríamos lendo sob luz de velas, como na comovente autodescrição de Maquiavel. A coerência de um gênio pode até ser imitada, mas não é dom geral, convenhamos, e por causa de uma noite mal dormida, o mais racional dos homens se torna tão ilógico quanto o mais incoerente de todos. Um ser coerente o tempo todo não é humano. Pena.

Se não há coerência, não há racionalidade. Nada mais a dizer sobre isso. Louvaremos, então, para compensar, a nossa irracionalidade? Não conseguimos sequer fazer isso, porque todo nosso pensamento é estruturado. Não conseguimos torná-lo amorfo nem mesmo enchendo a cabeça com droga pesada, como fazem as personagens do filme Fear and loathing in Las Vegas (1998). O máximo que podemos atingir, procurando a irracionalidade, é algum chavão hipergenérico com tinturas de profundidade mística. A fluidez do ser é algo que não nos é concebível. Não de todos os ângulos, por isso é tão difícil entender as raízes da matéria e os confins do universo. Conclusão: não dá para ser racional nem completamente irracional. Estamos presos no medíocre mundo estruturado das sociedades heteróclitas e das palavras ambíguas. Pena.

Palavras têm significado, mas têm sobretudo valores. Volta e meia uma palavra se torna tabu, porque reflete um pensamento sob vigilância, que, se deflagrado, provoca indignação social, processos, cadeia, morte. Palavras já não são meras sequências de sons impunemente pronunciados, nem feixes de significados com os quais podemos brincar, como Henfil e outros chargistas faziam. Recentemente, o fetichismo neo-irracional deu vida ao terceiro elemento do signo: a referência. Falar uma palavra má evoca o mal, macumba que tínhamos esquecido desde a revolução industrial. Ao falarmos merda há quem sinta o cheiro do material pós-digestão expelido pela cloaca ou pelo ânus (dependendo da sua origem) e essa imagem evoca o próprio contexto da defecação na mente sensível do ouvinte. 

Cripticamente, perguntaremos: os que sofrem de problemas naquela fase freudiana específica e inominável anterior à fálica, segundo as bizarras conclusões psicanalíticas, verão nessa minha frase confusa alguma mensagem subliminar provocativa? Sei lá, sim e não, só se fizer e se não fizer sentido o que eu disse. 

O policiamento de todos contra todos é uma realidade no mundo pós-pós-moderno, tanto quanto nas épocas mais fechadas e antiquadas. Foi esse policiamento, sob outro manto, que fez Descartes fugir para a Suécia e morrer de pneumonia à busca de um financiamento, que se mostrou excessivamente caprichoso. "Matei Descartes porque Descartes era meu", podia ter pensado a rainha Kristina, inconsciente de que o amedrontado Descartes era, na verdade, de toda a Humanidade. Do mesmo jeito pensa o boçal que deixa um garrafa no meio-fio.

A violência verbal e física, que cresce exponencialmente, parece ganhar prestígio no mundo neo-irracional atual, embora se fale tanto de "paz", de "amor", de "igualdade", de "justiça", de "coerência" e de "tolerância". Quem permitiu isso? Nós mesmos, nessa bizarria atual conhecida como redes sociais, mostrando-nos para todos. Aposentamos a hipocrisia para ficarmos com a histeria. E se tivesse ocorrido alguma evolução social, até teria sido uma boa troca, mas não houve nada. Os valores hoje em dia são pasteurizados. Não se permitem meios-termos. Ou você é X ou é não-X: estamos à beira do Grande Paradoxo. 


Concluímos acima que não somos racionais, mas aferramo-nos em poucas opções. Cobramos que alguém se decida entre o verde ou o lilás. O azul não é opção. Quem definiu foi o uso e a horda. O que está na boca de todos é o que existe. O que está nos livros, empoeirando-se e servindo de repasto de tisanuros, um dia voltará a ser lido?

Sim, o mundo é muito maior que essa lengalenga anacrônica atual. Tudo adquire uma tonalidade muito mórbida hoje em dia porque não se sabe mais o que é humor e o que é o mundo além-umbigo. Não é porque nos escandalizamos com o lixo jogado na rua que merecemos o título de reacionário, de direitista, de antirrepublicano, de elitista e outras baboseiras, marcas de Caim na nossa testa. De onde veio essa necessidade classificatória? Da insegurança infantil que assola os terráqueos atuais? Exigir é bom, mas realizar é melhor. E realizar não é vestirmos uma couraça e despedir-nos de esposa e filho para ir à luta. Há um Aquiles lá fora que arrastará nosso corpo, que nosso pai terá de reclamar. Se eu pudesse aconselhar algo para alguém, pediria que fosse menos valente, mais incisivo e menos choramingão. Faria votos que buscássemos a culpa em nós mesmos e que nos arrependêssemos mais das nossas inevitáveis idiotices de seres semirracionais. Afinal de conta, nunca saberemos se nosso líder é tão rosadinho como as pétalas que saem de sua boca: o seu trono está longe demais e só tenho notícias indiretas dele. Por que pôr a mão no fogo por algo ou alguém que não conheço nem nunca conhecerei?

Que em 2015 sejamos sim mais céticos e mais críticos, mas não massinha na mão de bebês voluntariosos que, sinceramente, nem sei quem são. 
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A VERDADE, NADA MAIS QUE A VERDADE

Mente quem acha que a fala humana serve para comunicar-se, pois o seu verdadeiro objetivo é a mentira. A mentira quase não é o propalado vício condenável por todas as culturas, mas um impulso humano difícil de ser domado. O fenômeno da mentira, visto de forma pouco judiciária, associa-se àquele outro estranho fenômeno que Sartre denominou mauvaise foi e que é tão esplendidamente exemplificado no seu romance La Nausée.

Um dia A prometeu que faria B a C se C fizesse D, mas após C ter feito D, o cara-de-pau do A negou ter prometido que faria B a C. Esse tipo específico de mentira (se é que A se lembrava de fato de ter prometido B a C) é conhecido como "não-cumprimento de promessa" e quem o comete é demonizado pelos alemães com o título de unzuverlässig, palavra mais feia que qualquer ofensa à genitora. O não-cumprimento de uma promessa gera com frequência a ira, quando não mortes. Muitas desavenças houve até que alguém bolasse um modo de não necessitarmos de coisas fugazes como memórias para sustentarmos as promessas. Surgiu a ideia do registro que, se descumprido, geraria no mínimo uma pendenga judicial. Assim nasceu o conceito abstrato da justiça.



Heráclito já disse com sua bela obscuridade que tudo é liquidamente fugaz, mas o conceito de promessa parece querer ter a pretensão de quebrar essa máxima. Uma promessa fugaz é uma contradição, pois a perenidade faz parte da definição de uma promessa. E o perene sempre foi uma obsessão humana por ser algo que alimenta a esperança e a alegria. Talvez por isso, não bastava que alguém tivesse ouvido Homero ou Jesus e em seguida registrado suas palavras: foi preciso inventar algum tipo de gravação magnetofônica para registrar a voz de nossos ídolos. Pouco depois, alguém sentiria falta de eternizar o próprio momento e substituíram-se os quadros, não suficientemente realistas, por fotografias. Mesmo tendo gravado a voz de alguém declamando seu poema, mesmo tendo fotografado essa mesma pessoa nesse momento, por insatisfação, foi preciso juntar as duas coisas e criar a filmagem, para que ressuscitássemos nossos ídolos mortos falando e movendo-se como nós, ainda vivos. Ainda assim, estávamos cientes de que apreciávamos apenas uma pequena parte de sua existência e isso obviamente ainda parece pouco. Os reality shows deram o passo seguinte: prendendo algumas pessoas numa casa, presenciamos, ainda que apenas durante meses, a sua existência e nos parece satisfazer o fato de essa existência ser tão artificialmente criada.

Qual será o próximo passo? Monitorar cada segundo da vida de uma pessoa, por dentro e por fora, não só mostrando o que faz na cozinha e no banheiro, mas dentro de seu cérebro e órgãos? Nosso voyeurismo, fruto da nossa necessidade de controle da fugacidade, nos empurrará a meios cada vez mais ousados, até vermos como funcionam e deixam de funcionar cada espasmo e pulsar durante cada ato? Será que assim saberemos, por fim, se as pessoas que cruzam nosso caminho na rua movimentada são gênios ou idiotas? Saberemos quais são suas preferências sexuais nesse confessionário pós-moderno? Seremos alertados se são assassinos ou se são suicidas? E mesmo quando cada movimento de intestino de cada pessoa do mundo ao longo de toda sua vida for monitorado, ainda talvez não nos satisfaçamos, porque estamos longe de termos a onividência divina.

Sêneca diria que isso é loucura, pois natura semina nobis scientiae dedit; scientiam non dedit. Aliás, se me perguntassem aonde quer chegar o Homem, diria que uma boa resposta seria ver o que ele imagina existir em Deus. Parece que as qualidades divinas, por nós mesmos atribuídas, são exatamente as que são invejadas por nós, símios que sofrem de atriquia, presos na insegurança da mentira iminente e da traição certa do amigo mais querido. Armado até os dentes, em cada ato de covardia, o exibicionista bicho-homem simula a onipotência divina. A cada cyberbisbilhotagem, o hacker sente o gozo de estar próximo da propalada onisciência.



A sensação de controle das variáveis, que os cientistas regozijam em ter nas mãos, não é diferente. Cada previsão corroborada, cada dado controlado, cada descoberta antiintuitiva faz que o cientista prove um pouco da realidade inacessível a nossos sentidos limitados e nos mostre o quanto estamos longe da intuição quotidiana. E se a percepção científica é distinta da percepção comezinha, a ciência é o que nos faz alçar a situação de semideuses. Só nos falta a eternidade.

Mas - espanto! - há quem não creia na ciência, mesmo que o cientista se mate provando que uma conclusão científica é um dado puro, sem a atuação de nossa vontade, enfim, a vida como ela é. Na verdade, não acreditar na ciência pode ser pura burrice, mas esse acesso de pirronismo que afeta paradoxalmente sobretudo os mais crentes é justificável quando pensamos que por trás da ciência há um limitadíssimo cientista. Ora, é natural que homines amplius oculis quam auribus credunt, diria novamente Sêneca, portanto a verdade é que uma conhecimento científico arduamente adquirido quando é negado só pode ter uma razão: nossa incapacidade de entender os pressupostos daquele conhecimento.

Há decerto algum estímulo em alguma glândula da nossa matéria cinzenta que nos dá algum regozijo quando experimentamos o domínio de algo ou de alguém. Isso faz pensar que nossa espécie é movida por instintos que a tornam uma espécie de dominatrix. Seu chicote é implacável quando as coisas saem do controle. E o conhecimento científico é um controle, mas não o único. Daí muitos se darem ao luxo de dizer que não creem na ciência, como se fosse algo tão simples quanto dizer que não creem em sacis, em caiporas ou em qualquer coisa que não veem.



Ninguém nasce com tendência ao masoquismo, mas o sadismo parece pulular nas veias da nossa espécie. Somente depois de muito choro, de muita conversa e de muitas experiências frustradas, torna-se, enfim, em adulto, com alguma assimilação dos bens milenares de civilidade. Quando aprende que não deve fazer isso ou aquilo, que não pode ser assim ou assado como ele quer, mal sabe que, antes de seu nascimento, houve revoluções e muitas desgraças que originaram aquele valor  que quer destruir, conhecido como Bem.

Evidentemente, valores existem para ser questionados. Mas nem sempre o questionamento universal dos valores traz aquilo que os cidadãos modernos costumam chamar ingenuamente de progresso. Há coisas arduamente conquistadas sob a forma de valores imiscuídos a bobagens. Imaginar que o joio será separado do trigo por causa da nossa eficiente lógica é um delírio. Todo apelo a um progresso natural nada mais é que um conto-de-fadas, criado pela mauvaise foi humana. Nasceu da sua boba crença de superioridade sobre as espécies. Nem tudo melhora, só porque tudo muda. Não concordará comigo o relativista, dizendo que só existem mudanças e não há mudança para melhor, nem para pior. Didaticamente, bêbado de mauvaise foi, me ensinará que mudança é adaptação e os valores independem da mudança.

Mas o relativista não enxerga que há estabilidade nas mudanças, obviamente, porque elas nem sempre são controladas por entes que têm vontade própria. Há mudanças que dependem da vontade e outras que independem. Se eu dou uma banana à questão do aquecimento global porque sou cético e não vejo diferença entre a declaração de um xamã e a de um cientista, decerto não consigo acompanhar o raciocínio do cientista. Se o raciocínio do xamã é algo que requer que lidemos com analogias, o do cientista requer que conheçamos dados e algo do raciocínio lógico. Se não sou imaginativo, o que o xamã me diz é loucura. Se sou ilógico, as extensas cadeias de causas e consequências do cientista não fazem para mim o menor sentido.

Então falta, talvez, para entendermos o que nos diz o cientista, autopoliciar nosso pensamento, senão seremos distraídos por imagens que se interpõem entre seus silogismos. Mas se quisermos ser sensíveis ao que nos diz o xamã, devemos esquecer o que significa coerência e entregar-nos ao contrário do que as evidências e as consequências nos apontam, ou seja, àquilo que se chama fé. Convenhamos, não é fácil ter as duas coisas ao mesmo tempo. Fé e coerência não são compatíveis. Só conseguiremos uni-las se formos autoenganados ou se tivermos duas personalidades.

Hoje com a informação abundante, há um fenômeno talvez novo e bastante interessante. O conhecimento self-service que nos faz pensar que estamos além desses dois tipos de personalidade, a do crítico e a do prosélito. Não estamos. O crítico não aceita. O prosélito não questiona. Ninguém está além da crítica ou do proselitismo. Somos apenas seres que se apegam ou não a discursos e as razões disso são profundamente individuais. A verdade contida nesses discursos não importa. E se somos cientes disso, não sofremos da mauvaise foi: simplesmente somos crápulas.



Razões profundamente individuais, sem dúvida. Freud ressuscita com seu charuto à boca e nos pergunta: "essa individualidade viria da nossa alma?" O cético diz que não. O prosélito diz que sim. 

Individuais, sem dúvida... mas seriam genéticas? O cético dirá não. O prosélito dirá sim. O cético não tem evidências de que não sejam. Os prosélitos também só têm esgares e uma rala evidência de que sejam. Enfim, surpresos, observamos que o cético e o prosélito não se confundem respectivamente com o cientista e o religioso. O inverso também pode ocorrer!

Individuais, sem dúvida... mas viriam do nosso meio e de nossa educação? Da nossa experiência e de nossa vivência? O cético não diz que não. O prosélito não diz que sim. Sem querer, concordam e se entreolham espantados, pois estão acostumados à quizila. Palavras vagas fazem que todos entrem em acordo. Não há uma única direção nelas. O meio nos muda e mudamos o meio. A educação nos muda e mudamos a educação. A dupla implicação parece ser menos eficiente à avaliação de verdade que a implicação simples. Nesse limbo é que estão os acordos de paz.

Toda verdade gera ira - explica-nos o mestre relativista com sua empáfia de guru - porque o que é verdadeiro para um é falso para outro. Mas, pergunto a esse sabichão: "o que não é nem verdadeiro nem falso para ninguém gera a tolerância?". Aparentemente sim. A necessidade de viver em comunidade fez que tolerássemos o que não nos parece verdadeiro às custas de úlceras que se formaram porque nosso superego nos obriga a não esganar o próximo. O que não é nem verdadeiro nem falso sobrevoa o nervosismo das polêmicas. Está ali, elemento não-distintivo, coisa amorfa que merece pouca atenção do cérebro brigão do hominídeo, mas é algo que deveria ser mais bem observado e, talvez, cultuado.
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ESSE CORPO MATERIAL AINDA ME MATA

Não é fácil viver. Isso já muitos declararam. Contudo, o problema não está na vida, mas na consciência de que a vida é a única coisa que temos e que somente a temos por algum tempo. A vida antecede o nosso eu. Antes não éramos, logo não seremos, mas, conosco ou sem nós, a Vida continua. Isso é óbvio e certeiro, a menos que o Malin Génie de Descartes esteja de fato divertindo-se. Pensando nisso, um egípcio ou um indiano, vendo a feia lagarta se transformar numa linda borboleta, consolou-se com seu cérebro humano generalizador e metaforizou a metamorfose: viu-nos como lagartas. Mas a metáfora é falsa: a vida da lagarta é longa, apesar de limitada, e a borboleta, apesar de voar, tem vida breve. Não há uma pós-borboleta. A metamorfose não tem a ver com a transformação de nosso corpo em luz transcendental. Só serve de metáfora para um anseio humano.

E é incrível ver a certeza com que Platão narra sobre o Mundo das Ideias, como Plotino descreve com precisão as suas hipóstases ou como qualquer monoteísta fala sobre a vida pós-morte. Reencarnações e transmutações teorizadas pelos pitagóricos, pelos kardecistas e pelos hinduístas, qual a diferença senão no detalhamento descritivo de seu desejo? No fundo são apenas metáforas para nossa vontade de continuar vivendo.





Batismos - essa invenção persa herdada pelos gregos - que encerram a vida de uma hereditária impureza edênica ou que dão um upgrade num plano intangível, são atos estranhos: servem de consolo para aqueles que vivem uma vida que não desejam, determinada por alguém ou por algo que nunca viu. Tantos ritos, indígenas ou não, ecoam no fundo de nossa alma: quanta ilusão nas cerimônias de iniciação e de transição! 

Um casamento muda o nome, mas não transforma ninguém, nem o crisma, nem um bar mitzvah, nada vai para além do simbólico, essa fruta inexistente, único alimento da qual nossa psique se nutre.
O símbolo, essa ambrosia dos mortais que nos dá força e ânimo, determinação e segurança, anestesiando a consciência de nossa monstruosa ignorância. É a pauta de nossos sentidos e de nossos pensamentos. É aquela coisa que chamamos de alma, cegos e um tanto estupidificados, no torvelinho dos nossos espantos diários. Resistindo ao fato de que apenas somos um sistema (extremamente) nervoso coberto de carne e ossos, como um churro, queremos ser feitos de outra matéria distinta de tudo que nos cerca. Esquecemos quase sempre que somos apenas esse sistema nervoso e que a carne, julgada bela ou feia, na qual se pautam todos nossos amores e ódios, é apenas sua vestimenta. Tanto esse sistema nervoso, que é o nosso eu abscôndito e ignoto, quanto a carne e ossos que o circundam, são fruto de uma coisa que, por falta de melhor nome, chamamos de evolução, mas que na verdade não sabemos para que existe, porque a finalidade, afinal de contas, não foi invenção dos acidentes evolutivos. Frutos de gambiarras e desacertos, essa coisa chamada de minha vida parece única e especial, apesar de haver tanta vida à minha volta. Por puro afeto vindo da convivência comigo mesmo, amo-a ou odeio-a. A maioria, aparentemente, faz como eu: ama-a, mas não são poucos os que dão cabo dela, certos ou não de uma nova vida, melhor ou não, justificando-se nas profundezas dos seus ímpetos e no fundamento enredado de suas razões. Odiar a própria vida pode ser um defeito de constituição do sistema nervoso ou algo adquirido ao longo das depressões, frustrações e faltas da já por nós enxovalhada esperança, quimeras que tantas vezes nos deram óculos para ver além de nós. E é com esses óculos que amamos ou odiamos o que está ao nosso redor, chegando ao ponto de, num amok ensandecido, fazer desaparecer conosco até mesmo vidas que queriam continuar vivendo.



Mas o normal, para não falar de tristezas, é amar a vida e o nosso entorno. Amamos tanto que o destruímos, cegos com a certeza de que ficará tudo melhor se for como nós pensamos. O homem irrequieto não para com suas eternas mudanças. Nem todos contemplam essa vida amorável sob uma ótica zen. Não é fácil ver que não podemos voar, que as montanhas são intransponíveis, que as profundezas do mar são tão colossais, que a Lua não esteja ao alcance de nossa mão, que não conseguimos ver através das coisas, que não conseguimos ler os pensamentos alheios, que jamais veremos o átomo, que jamais estaremos no fim do universo, que sequer conseguimos enxergar ou ouvir o demasiado pequeno ou o demasiado grande, ou mesmo o que esteja a uma certa distância de nós, que nunca entenderemos algo que já passou: tudo isso nos mostra que somos tão restritos quanto qualquer outro ser vivo. Para isso a curiosidade humana, a sua irrequietude e alguma capacidade técnica inata deram à luz as ciências, que reduziram algumas de nossas limitações e nos tornaram mais seguros e, às vezes, arrogantes. Também a religião nos deu consolos, quando não aumentou nossas paranoias. Por fim, o próprio homem, eterno inimigo de si mesmo, nos constrange como aquilo que nos excede. Não é incomum que tenhamos medo de sair de dentro da nossa toca na sociedade ultramoderna, como quando, escondidos na savana, tínhamos medo de atiçar as feras com nossos movimentos de símio.

E perante o grande, o gigante e o infinito, lançamos as mãos para cima, disfarçando nossa impotência, e dizemos "dai-me um corpo, ó montes", como no poema de Lucian Blaga:

Daţi-mi un trup, voi munţilor


Numai pe tine te am, trecătorul meu trup,
şi totuşi
flori albe şi roşii eu nu-ţi pun pe frunte şi-n plete,
căci lutul tău slab
mi-e prea strâmt pentru straşnicul suflet
ce-l port.

Daţi-mi un trup,
voi munţilor,
mărilor,
daţi-mi alt trup să-mi descarc nebunia
în plin!
Pământule larg, fii trunchiul meu,
fii pieptul acestei năprasnice inimi,
prefă-te-n lăcaşul furtunilor cari mă strivesc,
fii amfora eului meu îndărătnic!
Prin cosmos
auzi-s-ar atuncea măreţii mei paşi
şi-aş apare năvalnic şi liber
cum sunt,
pământule sfânt.

Când as iubi,
mi-aş întinde spre cer toate mările
ca nişte vânjoase, sălbatice braţe fierbinţi,
spre cer,
să-l cuprind,
mijlocul să-i frâng,
să-i sărut sclipitoarele stele.

Când aş urî,
aş zdrobi sub picioarele mele de stâncă
bieţi sori
călători
şi poate-aş zâmbi.

Dar numai pe tine te am, trecătorul meu trup. 

Sim, a verdade, depois da náusea (Sartre não poderia ter dado nome melhor a esse sentimento), depois de separar o que é real do que é pura ficção inventada pelos outros ou nós mesmos, em vez da depressão que nos faz jogar de edifícios ou lançar aviões em montanhas, apenas virá certeira (e frequentemente passageira). Com a consciência dessa verdade, talvez alguma alegria, que remete à maior de todas as obviedades: somente temos e amamos o nosso corpo passageiro e, no entanto, flores brancas e vermelhas não pomos na nossa testanem fazemos tranças nos nossos cabelos. 

Sim,  o eu lírico desse impactante poema, porta-voz e embaixador da nossa angústia, declara que o corpo é feito do barro mole do Éden, mas paradoxalmente é apertado demais para a alma violenta que carrega. 

O homem pensa mesmo que o seu corpo é como a montanha ou o oceano, algo tremendamente poderoso, mas, sozinho, tem consciência de que não é, refletindo em silêncio ou durante um mero incômodo e inofensivo resfriado.

Nosso eu recalcitrante quer roubar o corpo dessas coisas monumentais para descarregar  toda a sua loucura. Quer que seu tronco seja feito da vastidão da terra e que do solo se faça o novo peito para seu coração impetuoso, que abriga os furacões que nos esmagam. Se assim fosse, todo o cosmo ouviria nossos grandiosos passos e apareceríamos impetuosos e livres como pensamos que somos. 

Nosso amor se estenderia por todos os mares, sob a forma de braços vigorososselvagens e ardentes. Atingiriam o céu e, conforme nosso arbítrio, apanhariam as estrelas resplandecentes para beijá-las ou quebrá-las ao meio. Da mesma forma, nosso ódio seria tão imenso que esmagaria, com nossos pés de rocha, até mesmo os sóis. Nesse gozo de onipotência, poderíamos sorrir.

Mas nosso corpo passageiro não é assim. Nem nossa vontade tão poderosa. Nem nosso autodomínio. Nossa força e sentidos não são ilimitadas. Nossa coerência sofre para chegar a ser, no máximo, kantiana. Beiramos o ridículo quando pensamos diferente. Nossa vida depende dos outros. Depende se ingerimos algo ou não, ou se abrimos a porta e pomos os pés para fora de casa, ou não. Ficar sozinho em casa esperando a tragédia poderia ser a solução, se a tragédia não viesse sempre do lado mais imprevisível possível.


Vai-se nosso corpo, vai-se o nosso eu. É a vitória do Leviatã. Não há jardim das Delícias, mas tampouco há caldeirão infernal que nos cozinhe. Ninguém verá Osíris. No Duat, nosso corpo, indiferente ao vestibular post mortem e pesagem de nosso coração, vai rumo a Ammit, síntese do tríplice medo e impotência dos antigos. Mesmo que nosso coração seja mais pesado ou mais leve que a pena de Maat, iremos para o mesmo lugar. O medo do que há no pós-morte impediu alguém algum dia de fazer algum mal? A perda da fé no pós-morte realmente fez com que alguém fizesse maldades? Muitos dirão que sim, mas eu tenho minhas dúvidas. Com ou sem esses mundos fantásticos, sabemos julgar o que é errado e excessivo, porque está entranhado na nossa moral, que independe de sacis e iaras glorificados. O mau, quer tendo nascido com a sua maldade, quer a tendo adquirido com o passar do tempo, é indiferente a isso, exceto se foi doutrinado por lavagem cerebral, cuja técnica do endoctrinement nos explica tão bem Olivier Reboul. Mesmo assim, paradoxo dos paradoxos: o mau não se preocupa com nada disso e o bom vive uma vida inteira com medo de uma outra vida que nunca ninguém viu, esperando-a como prêmio da sua bondade. Esse comportamento não parece digno de uma espécie que se diz superior às outras em inteligência. Trata-se, quero crer, de um pensamento inevitável, difícil de desentranharmos da nossa cachola malconstruída pela evolução.

O bom é que, findo o eu e nada havendo (nem sofrimento nem regozijo) tudo volta a ser como quando não existíamos. Ninguém fica triste porque não existíamos antes de existirmos. Deveria haver paralelo para o período depois que existimos, mas se não há é porque gostamos de existir. Mesmo quem crê em vida no pós-morte chora porque uma pessoa querida se foi. Se cresse de verdade, estaria feliz por estar melhor que nós, afinal nossos amigos todos vão para o Céu e se fizermos um esforcinho, também iremos. Mas parece que só os fanáticos pensam assim. Mesmo quem crê em vida pós-morte luta para não morrer e em nada a convicção de que há segundo tempo diminuem a sua tristeza e sua vontade de continuar nesse mundo em que nosso corpo não é equiparável ao de uma montanha ou ao do solo em que pisamos ou ao do vasto oceano. Mesmo quem diz crer na outra vida dá graças a Deus por continuar estando aqui, por causa da sorte de não ter embarcado rumo à morte, mas se cresse mesmo, acharia pena não ter tido a chance de vê-Lo no melhor dos mundos. 

Deixemos de hipocrisia se não temos propensão para o enfadonho fanatismo. Estamos contentes com o certo, ainda que reclamando sempre. Estamos felizes com nossa limitação porque o ilimitado, mesmo na cabeça do crédulo, é algo que não se tem pressa de experimentar. Ainda que sofrendo de dores atrozes, queremos aferrar nosso corpo ao barro de que Adão foi gerado, em vez de hipostasiarmo-nos no plano da substância pura e eterna. É perfeitamente possível ao desconfiado bicho-homem - que aprendeu a não confiar nem em si mesmo - pensar sobre a sua mais firme certeza: "e se isso tudo só forem palavras?".
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VIVA O INÚTIL!

Palavras têm peso. Às vezes têm mais peso que significado. Se você chamar alguém de patife, estará ofendendo-o. Mas se perguntar à mesma pessoa, antes de ofendê-la, o que é um patife, provavelmente não saberá dizer o que significa ou, ao menos, terá entendido algo diferente da pessoa que a proferiu. Se ponderamos sentido e valores, sem dúvida, a balança penderá para o segundo. Podemos sequer saber o que significa algo, mas a simples evocação de certas palavras devolve-nos a realidade animalesca e cruel do irracionalíssimo bicho-homem.

Dentro da esfera do pesado orbita o inútil. Chamar alguém de inútil é lançá-lo no desprezo ou convocá-lo à peleja. Dizer que algo é inútil revela nossa atitude despiciente para com algo que existe mas não faria falta se não existisse. Mas o inútil é de fato assim?

O bicho-homem, sem alma e sem galardões eternos, rasteja neste mundo de onde brotou atônito. Precisa comer e beber, senão morre, afinal há tempos seus antepassados já não fazem fotossíntese. Precisa dormir, senão enlouquece. Precisa defecar e precisa copular. Precisa ter aconchego de um bando, senão afunda na depressão. Além dessas coisas animalescas aprendeu outras necessidades que orgulhosamente o distingue do resto da bicharada. Precisa falar com alguém, senão falará sozinho perdido num mundo próprio de devaneios. Precisa de dinheiro, senão não consegue disfarçar-se de superbicho perante si e perante os outros. E por aí vai.

Assim sendo, é tachado de inútil tudo que não o ajude a aparelhar-se para mostrar para si mesmo como a cereja do cume do bolo da criação divina. Inútil é algo que não serve para ser ingerido. Inútil é aquilo que tira nossas noites de sono. Inútil é aquele que não sabe se comunicar. Inútil é quem não está devidamente enquadrado na sociedade, pagando seus impostos e cumprindo sua função fática diária. Inútil é aquilo que não gera dividendos.



Certo dia vi um entrevistado que mostrava que tinha reflorestado uma fazenda sua. A terra, desbastada e cheia de bovinos, só dava mato raso. Nada mais além da grama do pasto nascia lá. Os mananciais viraram enxurradas, as quais, por sua vez, remodelaram a terra sob a forma típica da erosão. A diversidade natural ficou monótona. 

Tergiversação necessária: cheguei à conclusão que o oposto da ecologia é a geometria. O homem faz de tudo para livrar-se do caos das matas, que tanto lhe dão insegurança. No lugar delas põe caixotes imobiliários quadrados de cimento e ruas planas de asfalto. Sim, muito melhor sem insetos, sem animais selvagens, sem cobras, sem mato anônimo. O homem não sossegará enquanto o mundo não for um deserto total. 

Mas esse entrevistado tinha pensado o contrário do que você pode imaginar. Tinha reflorestado deveras: a mata revicejou, os riachos reapareceram e, com eles, as aranhas, os tucanos e os tamanduás. Esse homem pensou diferente do bicho-homem mediano? Não, não pensou, gostou de frisar na entrevista, afinal de contas não queria mostrar alguma fraqueza subumana. Ao repórter redarguiu que era um empresário. Definia-se como tal. Assim sendo, fez isso tudo visando ao lucro e não à ipsa natureza. 

Lucro. Palavra estranha. Os projetos de extensão agroflorestal ensinam a conservar a mata nativa, mas visando ao lucro. Danem-se as florestas, se o lucro não pode ser invocado. Quem quer saber de uma mata inútil? Uma mata por si própria? Uma mata ela mesma? Nummus maximus deus est.

Diversidade sem utilidade vira piada no mundo atual. Até mesmo os ecologistas arregaram. Esse discurso não comove ninguém. Pra que preservar baleia se há tanto óleo e carne nelas? Só por simpatia? Um macaco louco não se identifica com baleia. E se identifica, faz isso porque a acha bonitinha. Preserva mico-leão porque é dourado e borboleta que é azul. Quem quer preservar bicho inútil, melequento, sem cor aberrante, peçonhento? Simpatizam-nos os vertebrados, mas e os quilópodes, os nudibrânquios, os insetinhos marrons sem graça que se suicidam nas nossas lâmpadas?




O ser inútil está fadado a morrer: sentença ditada pelo cruel macaco presunçoso que dominou a terra. Entenda-se: inútil para esse primata em questão. 

E a arte inútil? O pensamento inútil? Que dizer disso? Há uma grande distância entre a inutilidade de palavras ou signos inúteis e a de seres. As palavras inúteis são abundantes no nosso dia-a-dia. Mas já se pensou em exterminá-las. Um tal de Vaugelas é considerado o criador do normativismo radical. Mas é inútil acabar com as palavras inúteis, provaram os românticos após Vaugelas.

Um pensamento útil não me ajudaria a tirar vantagem em toda a situação? Aparentemente sim. Contudo, um pensamento que me faça enriquecer é útil quando estou vivo e saudável, mas inútil se estou à beira da morte. Assim sendo, a utilidade de algo abstrato depende do momento de sua aplicação. Um coco é útil para matar minha fome e minha sede, a menos que eu esteja num lugar sem pedras e sem aparelhos onde possa quebrá-lo.

Assim sendo, parece-me que, paradoxalmente, a utilidade de algo depende de coisas que são alheias àquilo que está sendo julgado como útil: a utilidade do dinheiro depende da vida e a utilidade do coco depende de pedras.

Mas avalia-se esse segundo elemento que se infiltra como novo fator antes de produzirmos a sentença acerca da utilidade das coisas? Obviamente não. Quem diz que o dinheiro é bom não está pensando na morte. Quem diz que coco é bom nem cogita em pedras.

Assim, pergunto eu: de onde vem a certeza do pensador comezinho que se interpõe entre mim e o meu deleite com sua abjeta e preconceituosa sentença: ISTO É INÚTIL? Eu diria que vem do mesmo lugar onde nascem todas as outras certezas: da mesma precipitação ilógica do bando que nos impulsiona a fazer asneiras.


O raciocínio do homem visa o útil, diria Bacon, mas o útil depende de fatores impensáveis, como mostramos acima. Assim sendo, o raciocínio visa a coisas que dependem de fatores impensáveis. Não consigo imaginar nada mais inútil do que algo que dependa de fatores impensáveis, portanto, o raciocínio, de fato, visa ao inútil.

Deleito-me em compreender isso. O útil sempre pareceu-me demasiadamente cristão, demasiadamente marxista, demasiadamente raso. A inutilidade é o objetivo daquele que raciocina. Quem se apodera do inútil para construir o útil não raciocina. Monta um espantalho, aliás, coisa útil para espantar corvos e proteger a lavoura de milho, ensinam-nos os inúteis desenhos animados.

A inútil leitura da inútil filosofia torna-nos perspicazes e críticos, algo que é útil somente se os outros que nos circundam são menos perspicazes e menos críticos. Dormirmos a tarde toda é inútil para a Receita Federal mas útil para recuperar nosso corpo e mente cansados. O inútil conhecimento faz diferença no útil concurso. Aquilo que é inútil em potência é útil em ato? O inútil, no fundo, tem alguma utilidade?

Mas o raciocínio visa ao inútil, como provamos acima. Então o raciocínio visa a algo que, no fundo , bem no fundo, tem alguma utilidade? Parece que raciocinar sobre o inútil pode ser a coisa mais útil que podemos fazer hoje em dia. E raciocinar sobre o útil? Tentemos.

Podemos pensar que o útil seja apenas um gozo momentâneo. Quando digo que o dinheiro foi útil para fazer algo, encerro no passado a sua função utilitária. O lucro, que é útil, me faz preservar um monte de mato, que é inútil. O lucro foi útil no passado e será útil no futuro, já o mato foi, é e será inútil sempre. Vejo que a diferença entre o útil e o inútil não se revela apenas na negação: sub-repticiamente algo se insinua. Nova descoberta: trata-se da mesma diferença entre o que é transitório e o que é perene.

O útil, portanto, revela-se um capricho, algo que depende do momento e de suas idiossincrasias. O útil é algo fútil.

O inútil, concluo, é eterno, tanto quanto os grandes valores que alicerçam as grandes coisas que construímos.

O inútil, provamos, é o que devemos almejar. Nada mais útil do que perseguir o inútil.

O inútil, quem diria, é o que forma a enorme base pintalgada de desprezíveis e vãs utilidades.

Viva o inútil!
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Sobre o autor

Graduação em Lingüística/ Alemão pela Universidade de São Paulo (FFLCH/USP). Especialização em Tradução (língua alemã- CITRAT/FFLCH), Mestrado e Doutorado (área: Filologia Românica - DLCV/FFLCH) pela mesma universidade. Especializações em Mannheim/ Alemanha (DAAD - Institut für deutsche Sprache), Heidelberg (DAAD - Romanisches Seminar/ Universität Heidelberg) e em Chur/Suíça (Pro Helvetia - Lia Rumantscha/ Institut Rumancz Grischun). Pós-doutorado em Coimbra/ Portugal (FAPESP - Universidade de Coimbra). É professor livre-docente da Universidade de São Paulo e orienta na especialidade Morfologia Histórica. Coordena o grupo de pesquisa Morfologia Histórica do Português (www.usp.br/gmhp), cadastrado no CNPq e o Núcleo de pesquisa em Etimologia e Linguística Histórica da Língua Portuguesa (NEHiLP), ligado à pró-Reitoria de Pesquisa, da USP. É redator do projeto DÉRom (Dictionnaire Étymologique Roman), sitiado no ATILF de Nancy (França). É membro correspondente pelo Estado de São Paulo pela Academia Brasileira de Filologia (ABRAFIL) e tradutor juramentado de língua romena pela Junta Comercial do Estado de São Paulo (JUCESP). Atua principalmente nas seguintes áreas: língua portuguesa, lingüística histórica, etimologia, morfologia histórica, sociolingüística, dialetologia do português e filologia românica.
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